A história de Ana

Ana chegou para a análise aos 22 anos – uma menina delicada e tímida que falava baixinho. Fora criada pela avó e convivera durante muito tempo com a tia, que só deixou a casa da mãe para se casar. As três mulheres viveram juntas muitos anos. 

A história de Ana era cheia de provações. O pai viciara-se em drogas e perambulava pela vida de um emprego para outro, entre internações e recaídas, de mulher em mulher.  A mãe de Ana, que se casara aos 19 anos, vivera com o marido na casa da mãe dele. Seguiu-o, depois, pela cidade, morando em diferentes lugares e lutando com o vício do marido, cada vez mais assíduo. Nessa saída, deixou Ana a cargo da avó. Engravidou depois de outro filho e tinha que trabalhar e dar conta da casa, do menino e do marido. Foi se distanciando de Ana. 

Essa vida errante e cheia de reveses só pareceu terminar quando o pai de Ana faleceu de seus excessos. Ana, quando me procurou, trazia as marcas dolorosas dessa infância ao lado da avó e da tia e da separação insuperável do pai e da mãe. Trabalhamos seus traumas, sua solidão, seus sustos e seu luto que a fizeram tímida e quieta. Falamos do pai, do irmão, da vida cheia de buracos, dos cuidados ternos da avó, do companheirismo da tia.

Um dia, arrumando a casa da avó com quem continuava a morar, achou um plástico cheio de fotos – de lá surgiu Ana comemorando aniversário, aprendendo a andar de bicicleta com o pai, brincando com os cachorros da avó, no colo do pai e ao lado da mãe. Essa série de imagens foram trazendo à sua consciência os sentimentos de, apesar de todos os obstáculos por que passou, ter sido desejada e amada. Reviu cenas em que brincava com a vó, de mãos dadas com a tia, em passeios pela cidade.

A certeza de que não fora abandonada e que todos haviam tentado compensar a distância que se estabelecera entre ela e os pais, operou uma transformação – Ana sentiu-se amada, cuidada e protegida de uma vida que havia sido bem ameaçadora fora dos muros da casa da avó. Entendeu que só podemos agir dentro dos limites de nossas possibilidades, mas assim mesmo, fazendo o nosso melhor.

As fotografias trouxeram de volta para a jovem os momentos de felicidade e amor que estavam escondidos em um saco de plástico não só na garagem de casa, mas no inconsciente, entre as dobras de seu ressentimento. 

Precisamos desdobrar também nossas tristezas, abrir pacotes e baús, achar vestígios e sinais das alegrias que se escondem em nosso passado, em nossa história – eles certamente iluminarão nossa vida.  




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