Tecendo a vida!

Marisa era uma mulher pequena, miúda, magra. Tinha um cabelo muito longo que chegava no meio das costas, olhos azuis grandes e riso fácil. Apesar de seus 60 anos, tinha um jeito juvenil. Falava baixo e sorria sempre. Tinha uma história de grandes perdas – mortes, separações, falências - que ela trazia escondida nesse jeito adolescente de ser. Sua queixa era depressão – sentia-se mal, comia pouco, tinha sonolência e era difícil levantar-se pela manhã. Morava vizinha da mãe, já bem idosa, e do irmão mais velho, numa simbiose que se assemelhava a um útero. Com a pandemia, sua depressão agravou-se e ela sentia medo, às vezes, tinha crises de pânico, achando que estava prestes a morrer.

A análise a reconduziu à infância, aos conflitos com o irmão, o preferido da família, aos ciúmes do pai e aos antagonismos com a mãe. Levou-a depois ao casamento, à criação dos filhos, à vida profissional. Cada etapa com suas perdas, algumas insuperáveis. Mas, na medida em que a análise abria espaço para a elaboração dessa história, em que podíamos costurar esses fragmentos e alinhavar uma tessitura, Marisa foi se recompondo. Aos poucos, foi deixando de lado o ar juvenil, mudou o figurino, cortou os cabelos, deixou-os crescer grisalhos e ondulados. Começou a sair de casa, voltou a procurar antigos amigos, ex-companheiros de trabalho, e retomou a vida que havia sido deixada lá atrás durante a vivência de seus lutos.  Enfeitou sua casa, recomeçou a cozinhar suas refeições, comprou flores. Era a vida que a chamava de volta.

Ela respondia a esse chamado não sem retrocessos, regressões, tão comuns durante a análise, mas o percurso geral era ascendente e a depressão ia ficando para trás. 

Trago esse relato para mostrar que é possível superar perdas e elaborar conflitos desde que se esteja disposto a fazer o percurso, a rever experiências e a senti-las como se estivessem presentes. 

Essa história lembra o Mito de Penélope, esposa de Ulisses que é julgado morto por, após dez anos, não ter ainda voltado da Guerra de Tróia. Para resistir aos apelos do pai para que se casasse novamente, Penélope usa uma estratégia – aceitará novo marido quando acabar de tecer uma veste mortuária para o pai de Ulisses. Para resistir aos apelos do pai, ela tece de dia e desmancha a veste à noite. Assim, faz passar os dias até a volta do esperado marido. Com a análise é assim também, vamos tecendo uma veste que sirva a nossos propósitos e desejos – às vezes cosemos de dia e desmanchamos à noite mas, superamos entraves e chegamos enfim a nossos objetivos.





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