Helena – abrindo a porta

Helena veio me procurar para análise com 72 anos. Uma mulher expansiva e falante. Contou que era filha de um homem que havia tido uma mercearia e de uma mulher que, depois de trabalhar em lojas de armarinho, deixou tudo para se casar – teve três filhos e ajudou, sempre, o marido na mercearia. Helena era a filha mais velha, sempre cheia de responsabilidades, cuidava da casa e dos outros dois irmãos quando sua mãe não estava em casa. Parou de estudar cedo porque precisava ajudar nas despesas da casa. Só completou o ginásio, como eram chamados os últimos anos do Ensino Fundamental. O marido era trabalhador e não deixava faltar nada em casa, mas estava sempre cansado e era mal humorado. Trabalhava nos finais de semana e não podia acompanhar os passeios de Helena com os filhos.

Depois de casada, nunca mais dançou, uma das coisas que mais gostava na juventude quando ia aos bailinhos da vizinhança – único divertimento que o pai, mesmo reclamando, autorizava. Os namoros eram escondidos dos pais e sempre muito ingênuos – beijinhos roubados em esquinas. Quando conheceu aquele que viria a ser seu marido, aí apresentou aos pais – o namoro, então, era em casa, sob as vistas da mãe.

Quando me procurou, Helena havia ficado viúva há 5 anos. Seus dois filhos já tinham buscado seu canto e suas relações amorosas – ela estava só, pela primeira vez na vida. Perguntei qual era a queixa que a fazia procurar análise e ela disse que tinha pesadelos recorrentes – estava presa em um quarto escuro e não conseguia sair. Acordava com o coração disparado e, sendo hipertensa, passava o resto da noite apreensiva.

Trabalhamos por dois anos a sua análise – Helena reconheceu o quarto escuro como um cômodo que havia na casa da avó onde passava as férias quando criança. A avó morava em uma casa de caseiros da mansão em que se empregara como arrumadeira e onde o marido cuidava do jardim. Para que a neta não ficasse bisbilhotando a residência, a avó metia-lhe medo dizendo que havia gente que, tendo entrado nos quartos do porão, não tinham mais conseguido sair.

Trabalhamos muito as lembranças da infância, os medos jamais confessados e a vida de repressões vindas do pai e do marido. Com o tempo, Helena começou a deixar de sonhar com o quarto escuro, procurou novas atividades para fazer fora de casa – um curso de informática, uma aula de dança de roda, uma professora de culinária. Eram atividades proporcionadas por entidades filantrópicas, a preços muito acessíveis. Descobriu que gostava de estudar e que havia lamentado não ter continuado os estudos. Ocupada, envolvida em novos relacionamentos, Helena começou a cantar em um coral da igreja. 

A porta do quarto escuro se abriu finalmente e virou coisa do passado. É para isso que serve a análise - para proporcionar mudanças, liberações e despertar o gosto pela vida – em qualquer idade.




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