Naza, rica de lembranças e alegria

Maria Nazaré, a Naza, nasceu em Belém, mas está em São Paulo desde a década de 1960. Teve uma infância pobre, mas com lembranças ricas – da casa dos avós, das brincadeiras e dos dez irmãos que teve. Contou com a ajuda de uma espanhola que era sua madrinha e que conseguiu, inclusive, uma bolsa de estudos para uma escola particular. Já nessa época, Nazaré enfrentava o peso das desigualdades sociais – as bolsistas deveriam entrar pela porta do fundo da escola. Mas, a menina se rebelou e conseguiu que a deixassem entrar pelo portão da frente junto com as alunas ricas. Também se rebelava contra os “bons costumes” e, como os meninos, jogava bolinhas de gude, empinava pipa e brincava na rua. Aos 18 anos, formada professora, “normalista”, como se dizia, ela começou a alimentar sua vocação de professora e assistente social. 

Outras alegrias estavam também ligadas à madrinha espanhola, as festas onde gostava de dançar, as férias na Ilha de Marajó, as “fugidas” para namorar na praça. Meio “maluquinha” como ela se dizia, gostava de carnaval e das fantasias que a madrinha lhe dava. Mas, alimentando o desejo de ser uma executiva, resolveu vir só para São Paulo onde arrumou emprego na área de administração. Aqui, conheceu seu marido, com quem viveu 19 anos e teve dois filhos que lhe deram cinco netos. Desde então, combinou o trabalho em empresas com o de professora de ensino fundamental.

Naza gosta de pessoas e de conversar, formou-se assistente social e empregou-se na Câmara Municipal de Osasco onde foi assistente de vereador. Com ele, trabalhou em uma ONG, um espaço cultural voltado para a comunidade que atendia de crianças a idosos. Em 1996, chegou a concorrer em uma eleição para vereadora. Perdeu a eleição, mas teve oportunidade de conhecer muita gente e de fazer projetos para atender aos jovens da região.

Hoje, ela trabalha em um residencial de idosos, com quem aprende a ver a vida de forma mais calma e consistente – eles fazem pensar como será nosso futuro, explica. Para lidar com eles é preciso muito amor, paciência e respeito. Os idosos, hoje, têm mais recursos, mais atividades, diz, muito diferente da época em que ajudava a cuidar dos pais da madrinha espanhola que ficavam em casa, sentados na cadeira de balanço, esperando alguém que lhes lesse o jornal. Hoje, os pacientes idosos dispõem de arteterapia, fisioterapia, oficinas com música e com palhaços. Gostam de conversar e fazer fofoca, têm amigos e estão ocupados.

Eu tenho idade - 69 anos - mas cabeça de jovem, diz Naza com seu sorriso aberto e fala alegre – quero ainda fazer muito na vida, ter o meu próprio espaço de atendimento ao público, com muita música e dança para crianças e jovens de todas as idades. Quero também voltar a Belém, visitar os lugares onde vivi, comer a comida típica de lá, ver de novo a Ilha de Marajó e fotografar a cultura indígena. Com tudo isso, ela quer escrever um livro para contar com quantas lembranças se faz uma história.





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