Zé Reynaldo, o Primeiro Ministro do Sarau Brasileiro

Quem vê Zé Reynaldo chegar sorrindo, com seu violão, e sentar junto a outros músicos para animar a turma que se reúne no Sarau Brasileiro para ouvir música, cantar, dançar, conversar, não imagina a história cheia de viravoltas e emoções que ele carrega. Filho de um alfaiate e uma enfermeira, nasceu no Bexiga mas, ainda bebê, mudou-se para Santos com os pais. Mais tarde, voltaram para São Paulo e foram morar na Cidade Dutra, onde sua mãe “deu injeção na bunda de toda a garotada do bairro”. Desde pequeno gostou de futebol e música. A escola ficava em terceiro lugar (ou um pouco mais abaixo), mas, mesmo assim acabou cursando química, de cujos conhecimentos guardou apenas a fórmula da água, diz rindo. Afinal, formou-se em sistemas, profissão que exerceu até o ano passado.

A música aprendeu com o pai e os tios que se reuniam aos domingos, na casa da avó. O primeiro cavaquinho foi o pai quem lhe deu e que, afinado para dar um som semelhante ao violão, permitiu que ele tirasse músicas de ouvido – desde o começo apaixonado pela Bossa Nova.

Casou-se cedo com Sandra, teve dois filhos, Isabela e Fernando, e mudou-se para Brasília. De lá, foi viver em Belo Horizonte, onde nasceu sua filha Carolina, o terceiro rebento da família. Especializou-se em sistemas novos de informática que estavam nascendo – atuou em diferentes empresas químicas. Voltou para São Paulo, mas não por muito tempo, a próxima parada foi Recife, onde permaneceu por cerca de três anos. Em todos esses lugares, entretanto, temperava a vida do homem de sistemas com a música, ótimo motivo para se reunir com gente alegre e ligada em música brasileira. De volta a São Paulo, preferiu morar em Santos, pegando diariamente um fretado para trabalhar na capital. Com os colegas de ônibus, formou um conjunto que descia a Anchieta tocando e cantando – transformando o ônibus em um verdadeiro trio elétrico. Das andanças desse andarilho, consta ainda um tempo em que a família morou em Lavras (São Paulo), onde os filhos estudavam e trabalhavam.

Aventureiro, descolado, Zé Reynaldo deixou a vida o levar. A certa altura, nas quebradas da vida, o casamento terminou, dele ficaram os três filhos e os quatro netos. Hoje, está casado com Claudia que conheceu em um dia em que uma amiga o levou para conhecer o Sarau Brasileiro e a turma que tocava lá. Com cara de quem não quer nada, esse homem alegre e contador de piadas conquistou o público do Sarau e a sua chefe e tornou-se o Primeiro Ministro. "Claudia é a Presidenta, eu sou o Primeiro Ministro”.

Há 74 anos, Zé toca música todos os dias – sempre, quando chegava do trabalho, pegava o violão e tocava por pelo menos uma hora, conta. Não pôde se profissionalizar como músico porque seria impossível manter a família. Possui um repertório imenso, toca com maestria e hoje, aposentado, permite-se dar aulas para quem quer aprender. Além da herança de música que recebeu do pai, herdou também a alegria – é um colecionador de piadas.

Ao final da entrevista, perguntei o que mais gostaria de contar para nós e ele revelou: Ah! Tem mais uma coisa, eu faço geleias. Todo ano, pego um tacho e faço geleias de frutas que distribuo entre os amigos. É uma receita com pouco açúcar que ele aprendeu pelas esquinas da vida. Diz que adora cozinhar – deve ser resquícios dos conhecimentos de química.

Mas, química boa mesmo é essa mistura de alegria, música, carinho com as pessoas e vontade de viver. Aproveite essa receita!




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