Viver é ter emoções

Zé Enrique é catalão. Nasceu em Barcelona (Espanha), em 1948, filho único de militantes socialistas que haviam lutado contra o Franco (Guerra Civil Espanhola) e enfrentavam a plena Guerra Fria. Lembra de uma infância cheia de mistério, com o pai e a mãe “sumindo por certos períodos” e ele sendo levado para a casa do avô, nos Pirineus. A mãe chegou a ser presa sete vezes. Em razão dessas dificuldades, seu pai foi o primeiro a sair da Espanha e vir para o Brasil, no dia do seu 3º aniversário. Três anos depois, ele viria com a mãe para encontrar o pai. Dessa infância traz uma posição política humanista e democrática e uma constante preocupação com significados profundos da vida.

Chegou ao Brasil já alfabetizado (em espanhol), o que dificultou sua integração às escolas locais ainda muito acanhadas e inflexíveis. Depois de muitos conflitos, deixou a escola para trabalhar. Começou como Office-boy, aos 14 anos, na Rua Boa Vista 265.  Mais tarde formou-se em Química e atuou em muitas empresas, entre as quais a Goodyear. Depois, estudou administração e especializou-se em Recursos Humanos, e trabalhou em grandes multinacionais, como a Nestlé e a Villares onde atuou por 26 anos. Cursou também Psicologia e aprendeu como poucos a lidar com pessoas, seja no campo profissional, seja no particular – sempre com muita graça, gentileza e carinho. É dono de um sorriso fácil e de voz doce.

Além do trato com as pessoas, teve outra paixão: a música que descobriu quando tinha 11 anos, ao quebrar o violão de um pedreiro que trabalhava com seu pai, Valdemar, um construtor de casas. Como castigo, ficou com o violão e aprendeu a tocar... Depois foi o contrabaixo e a bateria. Tornou-se músico e chegou a tocar profissionalmente em cruzeiros de navios, o Funchal. Numa dessas viagens, que intercalava com seu trabalho profissional, conheceu a primeira esposa, primeira paixão, Cinthia, com quem se casou e formou uma dupla – ele tocava e ela cantava. Separaram-se seis anos depois. Casou-se, pela segunda vez, com sua vizinha, Suely, ao lado de quem mora até hoje. Somos amigos da vida toda, diz ele. Como também sou amigo de Cinthia

Mas a vida não foi um mar de rosas – cuidou dos pais até a morte – de Pili (Pilar) e Pepe (José), cujo fim foi doloroso. Para reencontrar a paz e aguentar a ausência deles, realizou a peregrinação a Santiago de Compostela, saindo da França (o mais longo e antigo percurso). Procurava solidão e se desfazer do estres. 

Com 71 anos de idade, ele espera que a vida seja cheia de emoções, no campo das amizades e dos sentimentos, como foi até agora. Entre os projetos, há um do qual ainda não desistiu – ir aos Estados Unidos de moto, via São Paulo e Santiago. Como músico, aproveita a Quarentena para ensaiar uma hora por dia e espera ficar cada dia melhor. Sem ambições materiais, a vida para ele é sentir emoções. Dessa forma, vai equilibrando essas duas tendências – permanência e movimento, assim procura ser fiel a si mesmo e às relações que mantém, como com a irmã (adotiva) com quem pactuou uma ligação que é feita de algodão doce embrulhado com papel de poesia, como ele próprio é.




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