Ainda vou escrever sobre isso...

Renata Pallottini entrou em minha casa como sempre entrou – com um à vontade gostoso de quem é amiga há muito tempo, de quem já andou junto, de quem sente prazer em reencontrar. Mas, desta vez era diferente, ela vinha para me contar sobre sua vida e sobre seus planos para o futuro. Estávamos de máscaras, luvas e sem sapatos (deixados do lado de fora de casa) e sentadas a três metros de distância. Mas, como sempre, muito próximas em idéias e objetivos.

Ela nasceu em família italiana, por parte de pai e por parte de mãe. Da mãe, uma Monachesi, recebeu uma herança anarquista que até hoje explica seus gestos decididos e espontâneos, além de suas ideias sempre clamando por liberdade e justiça. 

Renata ficou órfã de pai cedo, aos três anos, quando ele faleceu de uma doença não debelada. A mãe, com 21 anos, acabou se casando de novo, com Djalma, que foi um padrasto bom, respeitoso e presente, que a alfabetizou e ensinou a valorizar, antes de qualquer coisa, o estudo e o conhecimento.  Seguindo essa sugestão, Renata tornou-se uma estudante aplicada que cursou a Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo, tornando-se advogada e começando a vida profissional defendendo principalmente mulheres – naquela época, quem procurava uma advogada, e não um advogado, era, geralmente, uma mulher, explicou. Mas o gosto pela poesia e pelas letras era antigo, desde cedo escrevia, inicialmente, para deleite próprio.

Mas foi no TBC – Teatro Brasileiro de Comédias, que Renata tomou gosto pelo teatro e suas tramas e resolveu que iria escrever sobre os personagens e seus conflitos. Não passou muito tempo e Renata conseguiu uma bolsa de estudos na Espanha onde visitou os clássicos e aprendeu dramaturgia. De volta ao Brasil, abandonou o Direito e foi ser aluna da Escola de Arte Dramática – a EAD - em um curso de dramaturgia. Fez muitos contatos e amizades e, desde então, mostrou não só seu dom para poesia, mas também para o teatro. Formada, foi convidada por Sábato Magaldi e Décio de Almeida Prado para continuar na EAD como professora. Passou a escrever romances, peças, poesia, ensaios e a dar aulas. Integrou-se à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e não parou mais. Escreveu peças como O Crime da Cabra que deu a ela o Prêmio Molière, foi candidata ao Prêmio Jabuti e ganhou o Juca Pato. Finalmente, tornou-se membro da Academia Paulista de Letras onde atua até hoje. Uma Imortal!

Renata foi uma viajeira constante. Esteve diversas vezes em Cuba, onde, pode conhecer regimes políticos que valorizam a justiça e a cultura, que fazem do estudo, da pesquisa e do aprendizado, uma rotina, o que lhe acrescentou uma proposta política mais humanista e engajada. Esteve também em outros países como a Itália e Portugal, cada vez mais incrementando sua bagagem de cultura grega e latina.

A vida amorosa foi também rica – sempre adepta de relações livres, desde que respeitados os desejos e a autonomia dos parceiros, teve relações duradouras e muito significativas que a ajudaram a ter essa postura positiva e realista diante do mundo. Hoje, viúva e sem filhos, lembra com saudade de seus amores.

O que Renata ainda espera para o futuro? Já vivi muito, mas, aos 89 anos (nasceu em 1931), ainda espero ver surgir uma sociedade menos preconceituosa, em que as pessoas possam ser o que são sem acusações, agressão ou preconceito e... que a poesia tenha cada vez mais importância. Ela se preocupa com o momento atual, com a pandemia, e promete: ainda é cedo, mas vou escrever uma peça sobre isso.





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