Pacheco em um céu de cabelos

Norival Pacheco nasceu na Moóca, mas mudou-se ainda criança para a Vila Mazzei, onde cresceu e arrumou seu primeiro emprego como aprendiz de cabeleireiro, aos 12 anos. No começo, reclamava, achando que não tinha nascido para aquilo. Mal sabia ele... Tornou-se logo oficial de barbeiro, atendendo aos jovens da sua época e criando cortes com navalha. Nunca mais deixou a navalha e os cabelos dos clientes, que foram se tornando cada vez mais famosos. Tarcísio Meira, Jô Soares, Agostinho dos Santos, Tony Ramos, foram alguns que entregaram seus cabelos ao Pacheco, esperando sair com cara nova. 

Como um cabeleireiro boa pinta, que sabia ouvir seus clientes, foi muito assediado pelas moças e arrumou muitas namoradas. Casou-se com a única que não lhe deu atenção, mas, em um mês, viu que tinha errado.  Mesmo assim, tiveram dois filhos e ficaram juntos por 22 anos. Depois disso, Pacheco conheceu sua segunda esposa, com quem está casado há mais de 30 anos e com quem teve mais uma filha. 

Pacheco foi esportista, jogou muito futebol, tênis e squash, manteve o físico em dia, mas foi no manejo da navalha que se especializou. É um autodidata, não se formou em nada, nem em cabeleireiro, como diz. Aprendeu tudo com a vida e na prática. Galgou muitos degraus e tornou-se famoso. Diz que sempre manteve junto à cama um bloco de papel e um lápis onde escrevia todas as ideias que lhe surgiam madrugada adentro. Mudou o conceito de cabeleireiro e barbearia – passei a servir café, a embelezar o salão, a dar comodidade à clientela. Era exigente em matéria de higiene e ambiente. Além de cortar, sabia ouvir e conversar. Passou a participar de campeonatos, ganhou inúmeros troféus que enfeitam o seu salão no Itaim-Bibi. Foi Presidente do Juri e da Copa Mundial de Cabeleireiros e foi eleito o Cabeleireiro do Século XX. Participou de programas de televisão, teve inúmeros artistas como clientes, assim como profissionais da mídia; deu aulas e formou muitos cabeleireiros. 

Mas, como nem tudo são rosas, lá pelos 50 anos, teve dois AVCs (como chamam o Acidente Vascular Cerebral) que o deixaram sem movimento algum do lado esquerdo. Quando voltou para casa, trazido pela ambulância, um colega lhe pediu que fizesse uma demonstração do seu corte em sua cidade, Araçatuba. Pacheco pediu que esperasse seis meses e, realmente, depois de seis meses e muita fisioterapia, estava lá para o evento agendado – 28 de julho de 1992. Foi nesse período que, podendo escrever com a mão direita, escreveu seu primeiro livro – Manual de Cabeleireiro. E, hoje, recuperado desse trauma, aos 80 anos, lançou o segundo livro, em janeiro de 2020, o Chão de Cabelos, com relatos de sua vida e carreira e ilustrações históricas. O Prefácio foi escrito por um cliente antigo de priscas eras – Inácio de Loyola Brandão que, em 2019, entrou para a Academia Paulista de Letras.

No seu livro, ele dá a receita de seu sucesso. É isso:

  1. orar;
  2. fazer planos;
  3. definir metas;
  4. trabalhar duro;
  5. ter sucesso,
  6. continuar humilde e
  7. agradecer a Deus. Acho que todos podem tentar, em qualquer idade, em qualquer profissão, com muita vontade. E, como conta Pacheco, com um bloco de papel, um lápis e uma navalha na mão.



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