A Boa-Viagem de Hebe, uma feminista de 95 anos

Hebe tem Boa-Viagem como sobrenome e seus 95 anos de vida têm mostrado que a viagem foi mesmo boa. Nasceu em uma cidade do interior de São Paulo que tinha 80 casas, depois, morou em Botucatu e Campinas onde estudou e aprendeu a se virar sozinha, a ser dona do seu nariz, como ela conta. Tornou-se professora, biblioteconomista, advogada e cientista social, e lecionou por muitos anos na educação pública até se aposentar. 

Casou-se aos 27 anos e manteve uma relação cheia de cumplicidade e apoio – Nós conversávamos muito e resolvíamos tudo em consenso... Aos 30 anos teve seu único filho, que lhe deu uma neta e esta o primeiro bisneto. Hoje, ela está sozinha, como começou a vida.

Quando se aposentou, Hebe dedicou-se à pintura por dez anos, mas chegou um tempo em que isso já não era suficiente. Resolveu se dedicar ao que sempre quis – a escrita. Depois de produzir, com a neta, um jornal que completou 21 anos,  resolveu contar a história do país sob a ótica das mulheres, utilizando um gênero que muito lhe agrada – a biografia. Se você perguntar para alguém se sabe quem é Adma Jafet, dirá que é uma rua perto da Paulista. Não sabe que Adma Jafet foi fundadora do Hospital Sírio-Libanês – explica ela, justificando o descaso dos historiadores a respeito da participação feminina na história. O primeiro livro foi publicado quando ela completou 80 anos. A ajuda financeira veio do marido ainda vivo na época.

Historiadores, escritores, padres, achavam que “mulher tem cabelo comprido e inteligência curta”, conta. Para mostrar que não é assim, ela visitou a história do Brasil, mostrando o pioneirismo das mulheres desde a chegada dos portugueses – , diz. Feminista, cujas ideias foram lapidadas durante sua trajetória, pela luta diária pela sobrevivência e a vontade de dar um sentido à vida, ela trabalha pela justiça, igualdade e respeito entre homens e mulheres. Na prateleira do apartamento onde mora, estão os 14 títulos de sua autoria – biografias, romances, histórias infantis.

Uma das biografadas foi sua própria mãe, filha de imigrantes espanhóis que não estudou porque o pai achava que instrução para mulheres era uma coisa perigosa. Depois, graças ao marido médico, ela estudou, perdeu o jeito de menina do interior e soube defender os interesses da família, mesmo depois de viúva. Sobre ela, Hebe escreveu: Uma mulher, uma revelação. Ela foi a grande inspiração da filha na permanente luta pela independência e realização pessoal. 

Toda essa história que Hebe contou em nossa entrevista está resumida no livro infantil que ela publicou pela Scortecci, cujo título é Por conta própria – descobrindo o mundo. Ao final, com seus olhos meigos e uma voz determinada, convidou-me para um chá que tomamos juntas numa mesa rodeada pelos livros que leu ou escreveu.





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