Esther – a criadora do Cine Papo

Ela é uma mulher magra, alta, de olhos claros e voz suave. Vem de uma família judia da Europa oriental que, mesmo antes da guerra, resolveu procurar um novo país para viver. Vieram para o Brasil, onde Esther Stiel nasceu. A infância transcorreu durante a Segunda Guerra e as notícias do Holocausto e dos progroms nazistas, que entravam em casa pelo rádio de ondas curtas do pai, enchiam a família de tristeza. Ela lembra que a mãe chorava muito ao saber da morte e desaparecimento de amigos e familiares. Mas, essa tristeza não impediu o pai de Esther de preparar a família para viver no Brasil – obrigou a própria mãe e os filhos a falarem português. Foi ele também que, desde os três anos da filha, a levava ao Municipal para ouvir concertos, dando início à grande vocação de Esther como aluna, pupila e aprendiz praticante. Aprendeu piano, gosto que transmitiu ao filho que é músico e ao neto. Teve aulas de jardinagem e até bordado. Pelas mãos do pai, também, aprendeu a gostar de cinema.

Em casa, Esther dispunha de uma biblioteca farta formada pelo pai, grande leitor, Na escola Caetano de Campos, onde estudou desde o primário até a graduação como pedagoga, tinha até aula de Biblioteca. Sua paixão e intimidade com a literatura vem dessa época – mais tarde, tornou-se tradutora e pesquisadora. Sempre adorei aprender, fiz cursos de tudo, desde criança, sempre complementando sua formação. No ano passado, já com 86 anos, Esther fez um curso de cinema japonês, no Instituto Moreira Salles.

Esther conheceu o marido, também judeu, em um restaurante. Casaram-se e tiveram dois filhos homens. Como o marido preferia que Esther cuidasse da casa e da família, ela deixou o emprego e, além dos afazeres domésticos, ajudava o marido na fábrica de roupas. Depois, separaram-se e ela foi trabalhar com um escritor de livros sobre o judaísmo, como pesquisadora e tradutora. Deixou o emprego para ajudar as noras a criarem seus três netos. Entre a dedicação à família e o trabalho com idiomas e literatura, continuava se dedicando aos cursos, e esse parece ter sido o segredo de Esther para uma vida cheia de curiosidade e conhecimentos. Segundo essa doce entrevistada, não podemos deixar de aprender – o resultado é um permanente exercício mental e de sensibilidade.

O cinema esteve na vida de Esther desde pequena. Acumulou experiências e conhecimentos e passou a fazer parte de um grupo de cinéfilos que se reúne para ver e discutir filmes, há mais de vinte anos. Depois de algum tempo, resolveu, aos 80 anos, criar seu próprio grupo de cinema, reunindo amigos e conhecidos. É o Cine Papo que tem sede em uma biblioteca no bairro de Pinheiros – os membros se reúnem a cada quinze dias, escolhem um filme, vão assisti-lo nos cinemas e, depois, se encontram para um debate. Prestes a completar 87 anos em maio, a única limitação que ela sente é a de não guiar à noite. De resto ela participa de grupos, cursos e das reuniões com amigos e familiares, continuando a exercitar suas paixões. Depois de uma certa idade, ninguém cria novas paixões, nós já as temos dentro de nós, ensina Esther. Pois é, ao que parece, o segredo da longevidade é também cultivar paixões.





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