Dona Dete, Mãe Pequena de Obaquecê

Maria Bernadete da Purificação, a Dona Dete, aos 78 anos, é uma mulher pequena e magra, mas com uma presença que cresce com suas palavras. Baiana, nasceu na cidade de Caetano Veloso, Santo Amaro da Purificação. O pai morreu quando ela ainda era bebê. Foi criada pela mãe, uma dupla mãe – mãe,  biológica e mãe-de-santo de sua casa no Candomblé. Com ela foi para Salvador e viveram numa comunidade familiar e religiosa de solidariedade e ajuda mútua – todos trabalhavam e cuidavam uns dos outros. O lugar de reza se tornava também o lugar de morada, de ajuda e de sobrevivência – uma irmandade, explica Dona Dete. Terminaram vindo para São Paulo. Aqui tudo foi diferente, disse. Foram ficando. A mãe, funcionária pública, conseguiu uma casa onde a família morava e a casa Obaquecê passou a funcionar. Dona Dete casou-se com um filho de santo da mãe, aumentando a comunidade. Com ele, teve o filho Cris, aos trinta e poucos anos – um menino quieto, comportado, o orgulho da família. Além desse filho, ela criou outros quatro garotos, filhos de parentes próximos e distantes. Todos estudaram, trabalham e estão bem na vida, com exceção de um, que deu um trabalhão.

Em São Paulo, Dona Dete empregou-se em casa de família e foi operária em uma fábrica de chapéus. Após cinco anos, a fábrica fechou e ela foi trabalhar em uma empresa de limpeza.  Depois, com o marido, teve uma fábrica de roupas que chegou a ter mais de 30 costureiras. A viuvez pôs fim a esse sonho empresarial.

Durante toda a vida, viveu essa relação de solidariedade e cooperação. Certa vez, em defesa de uma mulher cujo marido lhe tirara o filho e batera nela, ela ingressou em um movimento social chamado Casa das Mulheres sem Medo, em defesa de mulheres abusadas. Conseguiram vencer o homem e recuperar a criança. O passo seguinte foi entrar para a Copa do Povo, um movimento que se estende por todo o país em defesa do povo de rua e das famílias sem moradia. Há cinco anos, com esse movimento, ela passou da solidariedade para a militância. Recentemente, essa mulher franzina e de poucas palavras passou vinte dias acampada na Avenida Paulista, para que a Prefeitura da cidade cedesse um prédio para moradia da população sem teto. Conseguiram isso. 

Lutando por justiça social, por assistência aos mais pobres e desvalidos, ela encontra a cada dia novos objetivos e metas de vida a serem alcançadas. Não tem tempo para solidão nem tristezas. Perguntei-lhe de onde vem toda essa força e ela diz: da minha mãe, comovendo-se. Assim, após uma vida de solidariedade e ajuda mútua, Dona Dete passou a participar ativamente da vida da cidade, da ação política e do bem comum. A cidade agradece!




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