Quando o Universo conspira ...

Há uma coisa que recebemos logo ao nascer e que nos acompanha pelo resto da vida, marcando nossa trajetória e a lembrança que deixamos nos outros. Essa coisa é o nosso nome. Os pais, mal sabem da gravidez e do sexo do bebê que está por vir (embora haja os que fiquem sem satisfazer essa curiosidade), já começam a pensar no nome para lhe dar. O resultado, geralmente, envolve uma busca pelos arquivos da família, o apreço por personagens de filmes e novelas, a admiração por pessoas que se destacam socialmente e, às vezes, uma combinação de sílabas extraídas dos nomes dos pais. A verdade é que essa escolha transmite lembranças, sonhos e expectativas que precederam a vinda do bebê e que ele receberá juntamente com esse nome que lhe será repetido incontáveis vezes.

Pois bem, comecei o relato dessa entrevista por esse preâmbulo porque o meu entrevistado é um senhor de 85 anos que se chama nada mais, nada menos, do que Universo. Segundo seu relato, ele teve um primo de nome Vênus e outros que se chamava Saturno. O pai, querendo superar essa rivalidade astral, deu-lhe o nome de Universo. A criança parece ter gostado desse tema pois, quando se casou e teve três filhos, deu-lhes o nome de Hélio, Sideral e Celeste.

Universo foi sócio do Esporte Clube Corinthians desde pequeno e foi lá que aprendeu a nadar – ... aprendi no rio Tietê. Eles colocavam umas boias e a gente nadava lá. Mas foi quando Sideral sofreu um acidente e ficou hemiplégico, que ele se aperfeiçoou e se tornou um treinador de atletas para-olímpicos. 

O entrevistado foi um grande aluno ou “aprendedor” - quando veio do interior, onde a família criava bichos-da-seda, para São Paulo, fez diversos cursos – desenho artístico, desenho de móveis, desenho industrial, tornou-se projetista e professor. Passou por diversas empresas em São Paulo até se aposentar, na era Collor, quando, em vista do plano de sequestro financeiro, a empresa dispensou os funcionários que estavam em experiência. Ele era um deles. A aposentadoria parecia adequada, depois de 40 anos de trabalho, ainda mais porque a informática transformava completamente a sua área de trabalho, introduzindo os programas de computador – eu havia aprendido os programas, mas era muito lento, perto dos jovens que saiam da faculdade. Tornou-se vendedor, utilizando na profissão habilidades aprendidas com a família quando vendia produtos na feira.

Universo fez ainda outros cursos – idiomas, segurança, salva-vidas e dança. Mas a doença do filho é que o obrigou a tornar-se treinador – eu precisava ensinar meu filho a nadar. O sucesso nesse treinamento trouxe-lhe mais alunos, atividade que desenvolve três vezes por semana de forma voluntária, mas que lhe dá a oportunidade de treinar o nado e participar com sucesso de competições.

A sala na casa do Tatuapé onde mora desde que se casou a primeira vez – Universo é duas vezes viúvo - está repleta de medalhas e taças obtidas nos campeonatos e, dessa forma, ele tem feito sempre, na vida, do limão uma alegre e gostosa limonada. Através dos caminhos da vida e do universo, o entrevistado foi acumulando saberes e conhecimentos que aliou sempre a uma comunicabilidade fácil que ele atribui à sua origem espanhola. Para temperar ainda mais essa vida de tantas possibilidades e saídas vitoriosas, Universo dança quatro vezes por semana. Nos salões de dança, diverte-se e ensina especialmente tango, e é procurado pelas mulheres que sabem que ele dança muito bem – com muito respeito, diz.

Para explicar essa vida rica e cheia de manobras celestiais, ele afirma que deve tudo a seu nome – ninguém esquece, explica. Era meu destino ser o segundo Universo – o primeiro foi meu irmão que morreu. Mas o pai insistiu e quando veio o segundo filho repetiu o nome – esse Universo sobreviveu. 





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